Análise da Paisagem

Aula 19 — Unidades de Paisagem: Delimitação e Caracterização
Curso de Geografia

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

2026-04-29

Visão Geral da Aula

Tópicos

  • 1 O que são unidades de paisagem
  • 2 Critérios de delimitação
  • 3 Métodos de delimitação
  • 4 Caracterização e ficha descritiva
  • 5 Integração de evidências
  • 6 Oficina: delimitação na área de estudo

Objetivo da Aula

Compreender o conceito de unidades de paisagem, aplicar critérios de delimitação e elaborar fichas descritivas integrando evidências cartográficas, espectrais e métricas para a área de estudo — etapa central do dossiê.

1 — O QUE SÃO UNIDADES DE PAISAGEM

Conceito e finalidade

Definição

Unidades de paisagem são porções do território delimitadas com base na homogeneidade relativa de seus componentes (relevo, cobertura, uso, processos) e nas relações funcionais que os integram.

Outros nomes

  • Unidades geoambientais (Ab’Sáber)
  • Geocomplexos (Bertrand)
  • Geofácies / Geótopos (hierarquia escalar)
  • Unidades de terra (land units)
  • Paisagens elementares (escola soviética)

Finalidade

  1. Síntese espacial — organizar a diversidade da paisagem em unidades manejáveis
  2. Diagnóstico — cada unidade permite avaliação específica de potencialidades e limitações
  3. Planejamento — base para zoneamentos e diretrizes diferenciadas
  4. Comunicação — facilitar a leitura do território por diferentes atores

Unidade de paisagem ≠ classe de uso

Aspecto Classe de uso Unidade de paisagem
Base Cobertura/uso Integração de componentes
Critério Espectral/visual Funcional/estrutural
Limite Pixel/polígono Gradiente/transição
Conteúdo Uma variável Múltiplas variáveis
Produto Mapa temático Mapa-síntese

Exemplo

Uma “Planície fluvial com pastagem degradada e fragmentos de mata ciliar” é uma unidade de paisagem que integra:

  • Relevo (planície)
  • Geomorfologia (fluvial)
  • Uso (pastagem)
  • Estado (degradada)
  • Vegetação remanescente (mata ciliar)
  • Processo (erosão fluvial, assoreamento)

A unidade não é apenas “pastagem” — é a articulação de componentes em um espaço funcional.

2 — CRITÉRIOS DE DELIMITAÇÃO

Que variáveis usar?

Critérios de 1ª ordem (estruturais)

Critério Variável Fonte
Relevo Classes de declividade, formas, altitude MDE (TOPODATA, SRTM)
Geomorfologia Compartimentos, modelados Mapa geomorfológico (IBGE, CPRM)
Geologia/solos Litologia, tipo de solo CPRM, EMBRAPA
Hidrografia Rede de drenagem, bacias ANA, bases topográficas

Critérios de 2ª ordem (cobertura/uso)

Critério Variável Fonte
Cobertura vegetal Tipo, estado, proporção MapBiomas, Sentinel-2
Uso da terra Atividade dominante Interpretação visual, IBGE
Padrão espacial Fragmentação, conectividade Métricas (Aulas 17–18)
Dinâmica Tendência de mudança Série temporal (Aulas 15–16)

Critérios de 3ª ordem (processos/pressões)

Critério Variável Fonte
Erosão Cicatrizes, voçorocas Imagem, campo
Urbanização Expansão, impermeabilização Imagem, dados censitários
Disponibilidade hídrica Perenidade, açudes ANA, campo
Pressão antrópica Intensidade de uso Interpretação integrada

Princípio-chave

“A delimitação de unidades de paisagem é um ato de SÍNTESE, não de soma.”

Não se trata de sobrepor todos os mapas. Trata-se de identificar padrões recorrentes — combinações de relevo + cobertura + uso + processo que se repetem e definem porções funcionalmente distintas do território.

3 — MÉTODOS DE DELIMITAÇÃO

Abordagens práticas

Método 1: Sobreposição ponderada (overlay)

  1. Reunir mapas temáticos (relevo, uso, vegetação, processos)
  2. Sobrepor em GIS (QGIS)
  3. Identificar zonas de convergência — onde vários fatores mudam simultaneamente
  4. Delimitar limites com base nos gradientes

Vantagem: reproduzível, particiável Limitação: depende da qualidade e resolução dos dados

Método 2: Interpretação integrada (expert)

  1. Visualizar composições de imagem + MDE + mapas
  2. Identificar padrões visuais — textura, tonalidade, forma, arranjo
  3. Delimitar unidades por julgamento do especialista
  4. Validar com dados e/ou campo

Vantagem: capta nuances que algoritmos perdem Limitação: subjetividade, difícil replicar

Método 3: Combinação (recomendado)

  1. Usar overlay como base inicial
  2. Ajustar por interpretação integrada
  3. Validar com métricas e campo

Hierarquia escalar (Bertrand adaptado)

Nível Escala Critério dominante Exemplo
1 — Domínio Regional Clima + bioma Semiárido / Caatinga
2 — Região Sub-regional Geomorfologia Depressão sertaneja
3 — Geossistema Paisagem Relevo + cobertura Pediplano com caatinga
4 — Geofácies Local Uso + vegetação Pastagem em glacis
5 — Geótopo Sítio Microprocesso Voçoroca em vertente

Para a disciplina: trabalharemos no nível 3–4 (geossistema/geofácies), que corresponde à escala de análise da área de estudo.

4 — FICHA DESCRITIVA

Modelo de caracterização

Ficha descritiva da Unidade de Paisagem

Campo Conteúdo
Nome/código UP-1: Planície fluvial com pastagem degradada
Localização Porção central da área, ao longo do rio principal
Área ~320 ha (6,4% da área total)
Relevo Planície aluvial, declividade < 3%, altitude 250–260 m
Cobertura Pastagem degradada (70%), mata ciliar (15%), solo exposto (15%)
Uso Pecuária extensiva de baixa produtividade
Processos Erosão marginal, assoreamento, compactação do solo
Pressões Sobrepastejo, supressão de mata ciliar, eventos de cheia
Vulnerabilidade Alta — solo exposto em margem, APP desprotegida
Potencialidade Restauração de APP, pasto com manejo, corredor ecológico
NDVI médio 0,22 (pastagem degradada)
Evidências Mapa uso/cobertura, NDVI, imagem Sentinel-2, MDE
Conexão Conecta UP-2 (encosta) e UP-4 (reservatório)

Exemplo: mapa de unidades (esquemático)

Unidades delimitadas (exemplo)

Código Nome Área (%)
UP-1 Planície fluvial com pastagem degradada 6,4%
UP-2 Encosta com caatinga remanescente 12,0%
UP-3 Pediplano com pastagem extensiva 48,0%
UP-4 Entorno do reservatório (açude) 3,0%
UP-5 Topo de serra com caatinga preservada 8,0%
UP-6 Agricultura irrigada (pivôs) 12,0%
UP-7 Núcleo urbano e periurbano 4,6%
UP-8 Áreas degradadas (solo exposto + erosão) 6,0%

Critérios de qualidade do mapa

  • ✅ Unidades mutuamente exclusivas (sem sobreposição)
  • ✅ Cobertura total (toda a área classificada)
  • ✅ Nome descritivo (relevo + cobertura/uso + estado)
  • ✅ Legenda com cores distintas
  • ✅ Cada unidade com ficha descritiva
  • ✅ Limites justificados (que variável muda?)

Quantas unidades?

  • Muito poucas (2–3) → perda de informação
  • Muitas (> 10) → dificulta síntese e comunicação
  • Ideal: 5–8 unidades para uma área de estudo local

O número depende da heterogeneidade da paisagem e da escala de análise.

5 — OFICINA PRÁTICA

Atividade: delimitar unidades na área de estudo

Etapas (50 min)

  1. Preparar camadas (10 min)
    • Abrir no QGIS: MDE, mapa de uso/cobertura, NDVI, imagem Sentinel-2
    • Verificar dados das aulas anteriores
  2. Identificar padrões (10 min)
    • Com interpretação visual integrada
    • Anotar combinações recorrentes (relevo × uso × cobertura)
  3. Delimitar unidades (15 min)
    • Criar camada vetorial (polígono)
    • Traçar limites entre unidades (usar gradientes)
    • Nomear cada unidade
  4. Preencher fichas (10 min)
    • Uma ficha por unidade (modelo fornecido)
    • Incluir evidências (métricas, NDVI, classe MapBiomas)
  5. Revisão (5 min)
    • Cobertura total? Sobreposição? Nomes descritivos?

Entrega

  • Mapa de unidades de paisagem (PNG ou PDF)
  • Fichas descritivas (1 por unidade)
  • Mínimo: 4 unidades; ideal: 5–8 unidades

Prazo: até Aula 20 (mesma semana)

Este produto será a peça-chave do dossiê — o mapa-síntese que organiza toda a análise.

Síntese da Aula 19

O que vimos hoje

  1. Unidades de paisagem — conceito: porções homogêneas e funcionalmente integradas
  2. Critérios — 3 ordens: estruturais (relevo/solo), cobertura/uso, processos/pressões
  3. Métodos — overlay, interpretação integrada, combinação
  4. Hierarquia escalar — domínio → região → geossistema → geofácies → geótopo
  5. Ficha descritiva — modelo com 13 campos (nome, relevo, cobertura, processos, vulnerabilidade…)
  6. Oficina — delimitação e caracterização na área de estudo

Obrigado!

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Análise da Paisagem — Aula 19